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quinta-feira, outubro 16, 2008

lisboa labirinto


no labirinto que é lisboa
as putas passeiam-se levando a ingenuidade
entre as pernas com que compram bmw
e viagens para londres.
o sorriso de deusas de quinta categoria do olimpo
ainda captam alguns imberbes
e velhos com disfunção eréctil
que apertam o cinto até ao último furo
numa falsa elegância
para enfeite das calçadas à portuguesa.

a cidade, pornográfica, vende revistas
com meninas na capa trabalhadas em photoshop
para esconder a celulite e as rugas
que aparecem cada vez mais cedo.
o marketing do sexo escarrapachado nos comboios, nos eléctricos, nos autocarros
nos taxis, nos carros das empresas particulares e das instituições públicas
movimenta-se desde o rossio até camarate.
a cidade vende-se por sexo em cada esquina
e nos ministérios do governo
com a troca de favores libidinosos por alguns milhares de euros.

velha, caquéctica, amarga e dócil, lisboa, actriz porno
em fim de circuito recebe um cliente bêbado
a cantar um fado da severa na mouraria
na bica e no bairro alto
despejando a dor de corno e o ciúme.

lisboa a cidade mais pornográfica da Europa
adulta e adolescente
albergue de prostitutos
oferece carícias desde o cais das colunas
até às portas de Benfica que levam para casa
sapatilhas nike e le coq sportif
com o sémen derramado sobre o tejo
que alimenta as ninfas de camões
para gáudio dos críticos literários
que vivem fora da contemporaneidade
e se alimentam dos escarros e dos conceitos do passado.

lisboa, a puta do comércio, a vagina do país
em desconstrução.
os pobres, os ricos, os remediados, a pequena e a média burguesia,
os padres, os acólitos, as religiões,
todas as religiões
todos eles mergulham nas pernas de alabastro
numa orgia interminável.

odeio esta cidade com a capa de puritana
odeio os habitantes da desgraça recolhendo-se nos templos
para rezarem a um deus sem rosto que não sorri
e saem de lá como se tivessem a alma lavada
para, depois, meterem as mãos entre as coxas da cidade
e babarem-se como touros com meia dúzia de ferros
com carícias de olhos arregalados, os lábios a endurecerem
com o cheiro de um corpo à espera.

odeio-me, sim, odeio-me por fazer parte
desta procissão escrupulosa no seu dever
odeio-me por me amar nesta lisboa petéquia
que me abraça, corrói, drama, gasta
na satiríase dos seus genes.
odeio o tejo, o mosteiro dos Jerónimos
a sé, a igreja de são domingos, são pedro de alcântara,
a estrela, a graça, a rua dos bacalhoeiros, o coliseu,
as avenidas novas, a almirante reis, o conde redondo,
o parque eduardo sétimo, mártires da pátria, a rua do ouro,
e lisboa inteira, puta nua vestida de virgem messalina.

adormeço com o fado dos búzios de ana moura
e sabe-me bem. lisboa, rainha jezebel, encosta-se no meu ombro.


josé félix

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