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domingo, outubro 26, 2008

Outra realidade


O meu pai tinha uma paleta preta.
Aí desenhava a vida nas manhãs incertas
ou quando a rua não dizia a imagem
das tintas colocadas no tecido.
Eram amanheceres de silêncio
o que me incomodava, a fala muda
mesmo que dialogássemos por hábito
e concordássemos com um sorriso
de longevidade incredível, pelo tempo
que se demorava a desperecer
o movimento dos lábios de ambos.
O desenho era um pormenor, ficção
já rarefeita da realidade
que se mentia tracejando linhas
como em qualquer retrato de circunstância
feito a pedido nos dias inúteis.
Fixávamos o sol até à cegueira
e na visão dorida concluíamos
por unanimidade acerca da condição humana.
Eram dias assim, com a amargura
da visão crítica de longa existência
que saboreávamos a ironia
das vidas que passavam na fugacidade
de cidades traçadas no desenho.

A paleta com tintas e os pincéis velhos
esquecem no sossego de outro tempo
as pequenas memórias incrustadas
no cromatismo seco, apodrecido,
o bolor que ali teima fazer vida,
de onde se construíram irrealidades
e, mesmo, até, às vezes, risos leves
a clarear as horas indevidas.
Uma paleta preta, telas, tintas
no armazém velho com a minha idade
misturam-se com a mobília antiga
e já sem uso, nem utilidade
a não ser a reconstrução da vida
naqueles dias onde a frase morta
ecoa nos ouvidos como um pássaro
que pia no mais silêncio silêncio.

José Félix

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