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terça-feira, novembro 25, 2008

Urbanidade – Humanidade[1]

Luís Pedroso

Após a leitura dos dois últimos livros do poeta Luís Brito Pedroso, a saber, “O Meu Nome e a Noite” e “Sobregelofino”, e alguns poemas publicados na lista de discussão de poesia Escritas, retiro dois conceitos importantes dos textos: a urbanidade e a humanidade.

Foco dois casos paradigmáticos do século XX: Cesário Verde e Carlos Drummond de Andrade. O primeiro focou o desenvolvimento da vida urbana e o segundo, do Brasil, a luta do homem moderno, principalmente do homem urbano brasileiro, na sua luta pela dignidade e pela liberdade.

Só erradamente se pensa que a qualidade de poesia urbana passa pela hip hop e pelo rap. Muito das líricas que se chamam de urbanas pouco têm dessa qualidade por enformarem de desvios que não têm nada a ver com o que estamos aqui a tratar. Isto, para além de se saber que há muito hip hop e rap de qualidade como, por exemplo o do norte-americano Eminem que teve rasgados elogios do Nobel irlandês Seamus Heanley.

A qualidade de urbano passa, essencialmente por o objecto e sujeito ser o próprio homem e, começando por satisfazer alguma curiosidade e demonstrando-o, leio o seguinte poema:

DIOTTI

As pombas descem a rua

Mas a rua não pergunta de onde vêm as suas lacrimações

Faz-se silêncio numa qualquer casa de fados

E faz-se a morte

Saúde

Sede

Amor

Noutra casa rebentam coisas:

Homens esmurram-se em lutas fatais

Faz-se silêncio numa casa velha

e faz-se saudade

Grito

E distância

Abutres descem a rua negros

Abútreos, cruéis

Fazendo o silêncio neblina

Vapor de água

Morte

É uma casa terrível que ninguém habita

Ninguém ama

Seu sítio de deus

Cravo cantando o abandono

Haste fina de sentimento quebradiço

Diotina cansada adormece

Sua boca repousa no seu modo de sombra

E imediatamente a calma apodrece

As casas isolam-se

Chove de forma surda no nosso casulo de vidro

Diotina sonha profundamente

Viajamos sobre carris dourados

Definitivos

Há calor:

Somos promessas indestrutíveis

A hipótese de um amanhã

Abrem-se as portas entre planetas e acordamos

Pela enésima vez projectamos um no outro uma imagem idealizada

São seis horas da manhã

Diotina canta baixinho e todas as aves escutam a sua voz espantosa

Lenta e tristemente eu acordo para o dia

Esta Diotima, a lembrar a Diotima de Platão no Banquete ; ama-se aquilo que falta, é a espécie de simbiose do discurso poético do poema que se divide em duas partes, quase querendo ser dois poemas em vez de um: até “ […]haste fina de sentimento quebradiço[…]” a apresentação da cidade, da urbe e o desejo que lhe falta, com o tema de Diotima. Há, contudo, neste desejo e nesta falta de amor uma certa humanidade.

O poeta, inserido nos termos da comunicação actual, através dos meios informáticos, da Rede, não descura esse sentido, com algum humor e ironia patentes no poema “online” onde é necessária alguma imaginação para visualizar alguns sinais, como por exemplo:

html

img scr=ashes.jpg

a href src=fuga para o vazio


Se for uma boca tira-se uma fotocópia

Se for uma garrafa tira-se-lhe a boca

Se for uma mensagem atira-se para o lixo

Se for mais procura-se esquecer para sempre

Procura:

http://www.sitiodeacordar.com

o cyber palácio do sono

é a loucura do dia-a-dia.

Poeta da civitas, sedentário, caminha pelo novo nomadismo da Rede através da linguagem hipertexto. É o novo nomadismo preconizado por Pierre Levy.

Regressa sempre à cidade, e, isto é, se alguma vez de lá saiu, coloca no cadinho alquímico o campo e a urbe:

SEARA EM CHAMAS

Reunimo-nos para debater talassoterapia e êxtase

Um escritor professor planeava a sua fuga da bastilha

Dois poetas flutuantes percorriam em via rápida

Carreiras meteóricas

No sulco percorrível da cara de deus

Que estranho que é

Que estranho que é ser ventríloquo

Prestidigitador ilusionista vendedor ambulante

Na sombra da noite um almocreve descasca a maçã

E perde o amor à vida

Vai á procura de um sobreiro com ramos fortes

Há montanhas adiante é preciso subir e descer

Rebentar as águas

Descobrir para que lado correr quem chamar

A quem falar

Telefone cortado e telemóvel descarregado

Voz rouca e deixem-me despir Lisboa

Viver o subterrâneo

Sonho secreto de mente aberta a:

Pensemos nas casas vazias

Gritando a sua luminescência morta pesando

Pensando as palavras

Olho o céu e parece um vulcão de raiva

Um raio de não-tempo desprende-se dele

Atinge o átrio da minha alma

Parece que a casa toca o pátio das palavras do arquitecto

Atravessando a cidade em forma de cruz

Da água rasa em que nasceu

Desprovida de parabólicas fibra óptica e carbono

Um fanático perguntará onde está a casa

Essa casa com a espessura sanguínea

Mas eu digo, não há casa alguma

Que permita o transbordo globular dos nervos

E preparo-me para tempos de fraqueza

Ontem vi nascer o diabo.

Discursivo, penetra na urbe com o sentido crítico de quem vive no âmago da cidade; às vezes com sarcasmo, às vezes com ironia, e, sempre, com amor.

A falta de vida activa da cidade, por um lado, e o excesso de vida activa na cidade, por outro lado, leva o autor a deambular meteoricamente, perdido, com o sentido da perda, mas à procura de um sítio onde o sossego lhe retire a paranóia e a parafernália da luminosidade falsa.

NOITE

Passeio pela Avenida e não oiço nada do mundo
Sinto-me o Travolta no Pulp Fiction
a conduzir um descapotável e todo pedrado
só que eu não tenho um descapotável nem estou pedrado

Queria estar louco por alguém mas estou apenas louco
Ligo o rádio e tudo o que oiço é o meu nome
repetidamente repetidas vezes
Repetidamente
Até que começo a duvidar que essa palavra
tenha alguma coisa a ver comigo

Quando me apresentar a ti como queres que faça?
“O meu nome é Luís” ou “Sou o Luís”
Qual a (mais) verdadeira?

Passeio pela noite cidade
mas poderei passear assim quando a noite vier?
Avenida acima a ouvir Morphine e é tão fácil
até se vê no céu o Mark Sandman sorrir
diz-me que a vida é bela
Dou a volta ao marquês que me acena e sorri
está a olhar por Lisboa
É uma noite quente e quando quero o silêncio junta-se às brisas
Avenida abaixo dou a volta na Baixa e a cassete dá a volta também
-------silêncio-------
*******auto reverse******

Não te consigo imaginar ao meu lado esquerdo no lugar do passageiro
O lugar do morto
Há três horas que ando às voltas na minha cidade nocturna
esperando uma iluminação ou o acabar do combustível

Arranja-me um sítio para passar a noite
um lugar para esquecer os lugares e os limites
e um momento em que deseje mais e mais vida
mais um século de mim mesmo.

No último livro, “sobregelofino”, Luís Brito Pedroso vai mais adiante no discurso, trabalhando os signos, signos, sim, e não metáforas porque na linguagem, de Luís Pedroso (re)cria uma imagética urbana singular, colocando na cidade vazia, as casas e as pessoas que vivem ou não vivem dentro delas ou que fingem viver dentro delas: os sentidos, a solidão, a raiva, a ironia, o sarcasmo em toda a plenitude.

Encolho-me na caverna
Esperei em vão que a cidade viesse a mim;
Que os carros buzinassem e as pessoas acenassem
Sorririam amarelas diriam:
“está com bom ar”

Recolho-me no espelho:admiro-me?
Este é o objecto mais verdadeiro que possuo –

Permite que me veja de fora, de onde passo o tempo:
fora

Esperei também que o mundo viesse a mim
com tal urgência que impossibilitasse a fuga
Esperei que a cidade te devolvesse aos meus braços num falso acaso
Talvez ouvisse o meu nome de repente
Um grito rasgado na rua
descendo as avenidas oníricas da juventude
Da contínua embriaguez
Escondendo-se na alienação nocturna – escondias-te
Acordava e olhava o espelho
Olhava-me, de fora também do corpo
“os meus cabelos estão tão brancos”
Diria eu amanhã
Rapidamente, se eu o quiser poderão estar azuis
Mudar, estar pouco tempo nos transeptos da alma

Violetas ardiam no meu caminho
Eu não sabia ser – mas tentava descobrir o que tinha sido
Vejo-nos navegar aqui, vejo livros:
toco-os.
Memorizo a voz de todas as personagens –

Mas nunca os seus nomes
Esperei que algures se revelasse um acordar
Enquanto vivemos juntos
e nos apaixonamos pela deriva.

O poeta Luís Brito Pedroso é um poeta de cidade, com a urbanidade e a humanidade intrínsecas.

Não sei se o Luís Brito Pedroso leu os poetas hiper-realistas norte-americanos, como o poeta da respiração, Robert Creeley ou os objectivistas como George Oppen. Para este caso não importa, pois vivemos uma cultura global.

Antes de terminar, e sendo avesso a citações, não posso deixar de iterar, neste contexto, o que disse Adolfo Casais Monteiro, em “A Clareza e Mistério da Crítica”, na pag. 167: “o crítico tem como medida o seu próprio espírito, a sua própria cultura, o seu próprio conhecimento da literatura. Porque nesta tudo é evanescente, digamos assim: as palavras são ideias e sons; são significação e ao mesmo tempo outra, ou outras coisas. Quando o crítico agarra uma palavra, ou um conceito, ou um verso, ou uma imagem, realmente não agarrou senão somente um caleidoscópio que tem tantas verdades quantas as possibilidades de combinação dos espelhos com o que lá estiver dentro.”

Há, certamente, outras reflexões sobre a obra do poeta. Eu remeti-me ao “poeta da cidade”. Cabe ao crítico analisar, segundo a sua formação e sensibilidade, outras diferenças.

Foi-me grato lê-lo e fazer esta nota introdutória que, creio, aguçará o apetite para os livros e para a leitura diversa. Sentir, sinta quem lê, disse-o Fernando Pessoa.

[1] Palestra proferida no Palácio da Independência, no dia 22 de Novembro de 2008, integrado no evento "Ciclo da Cidade"


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segunda-feira, novembro 17, 2008

refexione

apago as persianas
como se elas fossem interruptores da alma
e nas janelas coloco espelhos
onde os espectros renunciam
à substância da luz


josé félix

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domingo, novembro 16, 2008

TRÊS LIVROS DE UM POETA A SER LIDO

Walter Cabral de Moura

Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), 2003; Loucura Íntima, 2007; e Travessia, 2008, editados o primeiro pela Múchia Publicações, do Funchal, o segundo pelo autor, em Cacém, onde reside; e o mais recente, pela Edium Editores, do Porto, são três livros do poeta angolano/lisboeta José Félix, que se inserem na tradição de qualidade da poesia portuguesa, ao mesmo tempo em que constituem uma contribuição à renovação dessa poesia, em um aparente paradoxo de que só as grandes poéticas são capazes.

Une os três livros, com efeito, uma linguagem poética própria e original, que não se deixa rotular. Aliás, para que rótulos? É uma poesia “fleumática”, que emprega como ferramenta certa unidade temática e de linguagem, cujo lado mais visível é a recorrência de alguns campos semânticos ao longo de seu conjunto; sem no entanto tornar-se com isso monocórdica, dada a alternância de timbres diante do objeto do poema, no que se poderia chamar, com alguma liberdade, de uma poética filosófica, que reflete sobre certos temas e alicia o leitor a fazer suas próprias reflexões. São olhares, pensamentos, silêncios:

se eu soubesse com quantos / olhares se constrói / a vida bastaria / o teu somente o teu / para manter acesa / a flor iluminada / ... (ad rem, Geografia da Árvore)

eu contemplo o sol mas não me / ilumina o pensamento. / a todas as palavras que eu falo do / cimo da montanha / responde-me o eco com a maior / indiferença. (sem título, Loucura Íntima)

o silêncio é a essência molhada / onde a palavra cresce numa água / de fogo; a península coberta / de escrita adormecida nestas dunas. / ... (sem título, Travessia)

No trato da palavra e da linguagem – usadas freqüentemente em metalinguagem – o despojamento gráfico adotado nos três livros faz com que não sejam empregadas letras maiúsculas, por exemplo, e determina um parcimonioso uso de sinais de pontuação. Veja-se:

... / há eu sei uma árvore que espera / o fruto da linguagem não cumprida. (sem título, Geografia da Árvore)

conciliei-me com deus. / o movimento fácil dos lábios / procurou-me um verso / na palavra transumante. / passeei-me na fragilidade da flor / e deixei-me ir transeunte / no eco da coisa possível (sem título, Loucura Íntima)

... / a propósito. são líquidas as palavras / no molde da infância soterrada / na casca dos troncos visionários / ... (sem título, Travessia)

Poesia que flui em versos livres e brancos, exceto na primeira parte de Travessia, que leva o nome do livro (a outra parte chama-se o país das águas). Naquela, o soneto é revisitado por doze poemas, todos com quatorze versos o mais das vezes decassílabos, distribuídos em três tercetos iniciais e uma estrofe pentâmera final.

Percorre a obra uma plena coerência entre a amplitude da imagética e a pouca concessão feita à forma, o que contribui para conferir ao conjunto um sentido de unidade. Por exemplo:

alinhavas o tempo na toalha / com os gestos precisos / de paciente penélope / e na linha do ponto um nome oferta / pronominal de quem cativa / a memória / dispersa em gestos linha agulha / cosendo no alfabeto / o tempo tido no lume dos dias. (sem título, Geografia da Árvore)

às vezes / quando as ondas são as sétimas / regresso à pureza da primeira água. / é quando em decúbito me acolho / no colo / e ouço as canções inexplicáveis. / há sons que só a mãe tem a gramática / dos pássaros. (sem título, Loucura Íntima)

... / fico a saber que há sempre um começo e um fim, / porque uma ave levanta voo e pousa, / e não sabemos nunca o caminho / que as aves levam, no meio, entre os dois inícios. / ... (sem título, Travessia)

Pergunto: o que é afinal, a grande poesia, senão linguagem que captura momentos e os consegue transformar, daquilo que de fato foram – coisa que ao fim e ao cabo ninguém sabe dizer, se é que houve em cada um deles um de-fato-ser – naquilo que poderiam ter sido, caso todas as mitologias e teologias estivessem certas?

... / se o teu rosto reflecte o vago espelho / e não o prendes por um segundo mais, / é o mesmo que cegar de tanta luz / ou um fio partir-se de tão tenso. / da impossibilidade de tudo isto, / o zero tem a forma da semente. (sem título, Geografia da Árvore)

... / há dias na pergunta / dos murmúrios / que ficam presos na brisa das / árvores. (bucólica, Loucura Íntima)

correm os dias como cavalos doidos / e na crina do tempo / o cheiro das flores raras rasga / as narinas com restos de maresia adolescente. / ... (sem título, Travessia)

Pois vão assim os três livros, com um completo domínio da linguagem e das técnicas poéticas de que se servem, induzindo o leitor às suas construções pessoais, para o que são dados diversos indícios e pistas, nunca certezas, exceto uma: a de que se está diante de uma grande poesia, capaz de fixar momentos, em aparência incoerentes – mas só em aparência, como demonstra – e deles fazer poemas de grande alcance.

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Walter Cabral de Moura é poeta, de Recife, membro da UBE – União Brasileira de Escritores.


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terça-feira, novembro 04, 2008

lumen / vultus


por um instante
perdi-te na avenida

um lapso de memória
ou, talvez, o piar de um pássaro
no encantamento do tempo



josé félix

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