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domingo, novembro 16, 2008

TRÊS LIVROS DE UM POETA A SER LIDO

Walter Cabral de Moura

Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), 2003; Loucura Íntima, 2007; e Travessia, 2008, editados o primeiro pela Múchia Publicações, do Funchal, o segundo pelo autor, em Cacém, onde reside; e o mais recente, pela Edium Editores, do Porto, são três livros do poeta angolano/lisboeta José Félix, que se inserem na tradição de qualidade da poesia portuguesa, ao mesmo tempo em que constituem uma contribuição à renovação dessa poesia, em um aparente paradoxo de que só as grandes poéticas são capazes.

Une os três livros, com efeito, uma linguagem poética própria e original, que não se deixa rotular. Aliás, para que rótulos? É uma poesia “fleumática”, que emprega como ferramenta certa unidade temática e de linguagem, cujo lado mais visível é a recorrência de alguns campos semânticos ao longo de seu conjunto; sem no entanto tornar-se com isso monocórdica, dada a alternância de timbres diante do objeto do poema, no que se poderia chamar, com alguma liberdade, de uma poética filosófica, que reflete sobre certos temas e alicia o leitor a fazer suas próprias reflexões. São olhares, pensamentos, silêncios:

se eu soubesse com quantos / olhares se constrói / a vida bastaria / o teu somente o teu / para manter acesa / a flor iluminada / ... (ad rem, Geografia da Árvore)

eu contemplo o sol mas não me / ilumina o pensamento. / a todas as palavras que eu falo do / cimo da montanha / responde-me o eco com a maior / indiferença. (sem título, Loucura Íntima)

o silêncio é a essência molhada / onde a palavra cresce numa água / de fogo; a península coberta / de escrita adormecida nestas dunas. / ... (sem título, Travessia)

No trato da palavra e da linguagem – usadas freqüentemente em metalinguagem – o despojamento gráfico adotado nos três livros faz com que não sejam empregadas letras maiúsculas, por exemplo, e determina um parcimonioso uso de sinais de pontuação. Veja-se:

... / há eu sei uma árvore que espera / o fruto da linguagem não cumprida. (sem título, Geografia da Árvore)

conciliei-me com deus. / o movimento fácil dos lábios / procurou-me um verso / na palavra transumante. / passeei-me na fragilidade da flor / e deixei-me ir transeunte / no eco da coisa possível (sem título, Loucura Íntima)

... / a propósito. são líquidas as palavras / no molde da infância soterrada / na casca dos troncos visionários / ... (sem título, Travessia)

Poesia que flui em versos livres e brancos, exceto na primeira parte de Travessia, que leva o nome do livro (a outra parte chama-se o país das águas). Naquela, o soneto é revisitado por doze poemas, todos com quatorze versos o mais das vezes decassílabos, distribuídos em três tercetos iniciais e uma estrofe pentâmera final.

Percorre a obra uma plena coerência entre a amplitude da imagética e a pouca concessão feita à forma, o que contribui para conferir ao conjunto um sentido de unidade. Por exemplo:

alinhavas o tempo na toalha / com os gestos precisos / de paciente penélope / e na linha do ponto um nome oferta / pronominal de quem cativa / a memória / dispersa em gestos linha agulha / cosendo no alfabeto / o tempo tido no lume dos dias. (sem título, Geografia da Árvore)

às vezes / quando as ondas são as sétimas / regresso à pureza da primeira água. / é quando em decúbito me acolho / no colo / e ouço as canções inexplicáveis. / há sons que só a mãe tem a gramática / dos pássaros. (sem título, Loucura Íntima)

... / fico a saber que há sempre um começo e um fim, / porque uma ave levanta voo e pousa, / e não sabemos nunca o caminho / que as aves levam, no meio, entre os dois inícios. / ... (sem título, Travessia)

Pergunto: o que é afinal, a grande poesia, senão linguagem que captura momentos e os consegue transformar, daquilo que de fato foram – coisa que ao fim e ao cabo ninguém sabe dizer, se é que houve em cada um deles um de-fato-ser – naquilo que poderiam ter sido, caso todas as mitologias e teologias estivessem certas?

... / se o teu rosto reflecte o vago espelho / e não o prendes por um segundo mais, / é o mesmo que cegar de tanta luz / ou um fio partir-se de tão tenso. / da impossibilidade de tudo isto, / o zero tem a forma da semente. (sem título, Geografia da Árvore)

... / há dias na pergunta / dos murmúrios / que ficam presos na brisa das / árvores. (bucólica, Loucura Íntima)

correm os dias como cavalos doidos / e na crina do tempo / o cheiro das flores raras rasga / as narinas com restos de maresia adolescente. / ... (sem título, Travessia)

Pois vão assim os três livros, com um completo domínio da linguagem e das técnicas poéticas de que se servem, induzindo o leitor às suas construções pessoais, para o que são dados diversos indícios e pistas, nunca certezas, exceto uma: a de que se está diante de uma grande poesia, capaz de fixar momentos, em aparência incoerentes – mas só em aparência, como demonstra – e deles fazer poemas de grande alcance.

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Walter Cabral de Moura é poeta, de Recife, membro da UBE – União Brasileira de Escritores.


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