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sexta-feira, dezembro 26, 2008

onde




estou agarrado à penumbra
onde o sonho rarefaz
a capacidade de
enternecer cada gesto
─ artefacto ardiloso
da opacidade do olhar ─
onde com a permissão
a negação se reflecte




josé félix

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quinta-feira, dezembro 18, 2008

a casa

a casa é o microcosmo da existência. na casa fazemos tudo, digo, tudo, desde o nascimento até à morte. a casa é a memória, a ilusão, o sonho. a casa é a ira, a raiva, o ciúme, o gesto, o amor. a casa é o edifício arquitectónico onde nos (re)conhecemos nas mais íntimas revelações. a casa é a edificação íntima e pública de família (no sentido latino do termo).
o que é a casa? a casa é o meu olhar sobre o mundo. a casa é onde o olhar do mundo se abate. a casa é, sempre, a infância na constante modelagem. a casa é a renovação diária dos sentidos. a casa é a morte do meu pai. a casa é a visão do meu pai a desenhar o busto de antónio aleixo. a casa é a minha mãe, nua a passear no corredor depois do banho. a casa é o carinho mais terno da adolescência. a casa é a minha biblioteca. a casa é o olhar da mulher que acaricia a entrada. a casa é o barulho dos filhos. a casa é a conversa entre amigos discordantes. a casa é um simples tijolo. a casa é um grão de areia. a casa é tudo. a casa é nada.

josé félix


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terça-feira, dezembro 16, 2008

Texto de apresentação no dia 13/12/2008 do livro do poeta Vieira Calado, "Itinerário", publicado pela Edium Editores
Auditório Campo Grande

Itinerário

A construção de um percurso

Vieira Calado

A apresentação deste “Itinerário” é uma proposta feita pela editora Edium, aqui representada pelo Jorge Castelo Branco. Como gosto de desafios aceitei esta incumbência. O autor tem obra assinalável, não é um recém-chegado às letras, com vários livros publicados. Atenho-me só a este opúsculo de poesia até devido à impossibilidade de ler os outros volumes que, afirmo-o, farei na altura devida com o tempo necessário para a reflexão sobre a leitura que, creio, ser necessária após a degustação do livro que vou apresentar.

Como a escrita deve ser olhada com a alma para dela retirarmos algum conhecimento, alheio-me dos livros já publicados e vou concentrar-me no livro que tenho em mão.

“É preciso olhar as coisas com uma cuidada distracção”. É a partir deste verso que o poeta constrói o livro, dividido em três partes, três reencontros do percurso, quer-se itinerário, uma viagem tripartida, bem pensada na sua construção estrutural, com diversos apeadeiros, poemas, para satisfazer o descanso criativo.

Seria simples enquadrar a escrita do autor numa qualquer corrente literária mas, mesmo isso, hoje, é um exercício meramente de retórica que não acrescentaria substância a esta apresentação.

O trabalho de escrita é um exercício bilingue através da tradução semântica de sentidos vivenciados ou imaginados pelo autor, exercício analítico de um itinerário discursivo, mapeado até ao pormenor num texto lúcido, simples, com a sinalética diferenciada no caminho da poiesis.

O poeta, centro do mundo, da roda dos oleiros, o ponto fixo à volta do qual roda a criação exponencialmente transcrita no caminho da emoção pura. Com o “caminho recoberto de musgo” vai construindo o sonho que resiste às fragas da montanha.

Em cada apeadeiro do itinerário encontra os vagabundos da noite, nas sombras, procurando silhuetas que se gravem em sentidos, luzes e sombras ocasionais que dêem alguma transparência à estrutura do poema. Cada poema, cada pedra, cada aresta da pedra, é um relevo da escritura no sentido de da Mallarmée. A escritura da poesia centra-se no vazio e no desaparecimento das coisas do mundo e do sujeito que escreve. As da poesia sobre este mundo ausente, rasgam a tela espessa dos olhares e os códigos quotidianos que permitem aguentar, conter o alcance do real.

Este discurso da escritura, no desaparecimento do sujeito, fortuita e fatal ao mesmo tempo, como se interrompesse a dispersão perpétua das coisas, aparece aquilo que eu denomino de fotocaligrafia, fotografia, o sistema de registo que dá consistência ao olhar do mundo e ao mundo sobre qualquer olhar.

O processo da escritura, da poesia, cujo enorme reservatório mimético esteve sempre ao serviço de «restituir» mundos e verdades, parecia, então, que tinha sido deslocada por este sistema de registo, perfeito, que inaugurava o mundo exacto do reflexo, seu ícone.

A imagética poética de Vieira Calado além de beber esse conceito mallarmeano, vai mais longe e dá-nos a exemplificação perfeita no seguinte poema,

9 – estou vivo e colecciono pedras

O meu hobby é o de coleccionador de pedras

Classificá-las (o onde o peso a densidade – a cor o brilho)

Guardando-as uma a uma em pequenas caixas

De madeira cheirando a sândalo

Em compartimentos estanques

Até obter a necessária qualidade requerida

Do grupo.

Então deixarei para sempre a cidade.

Isolar-me-ei na montanha –

Suficientemente perto e longe

Para olhar-lhe os limites da expansão possível

(e os contornos da asfixia certa)

E plantarei as minhas pedras

No chão ainda virgem da terra.

E quando vier a luminosa violência do inverno

- às primeiras chuvas da minha morte –

Vê-las-ei crescer florindo

Na eternidade efémera

Dum lírio.

O tema da morte, que a poesia celebrizou, e celebra constantemente, o esquecimento, aqui tem a suavidade de uma brisa que toca a face, o ofício da lembrança, patente na colecção das pedras até obter a necessária à qualidade do grupo.

E ao décimo poema o poeta descansa do ofício e arte da terra, das pedras, matéria-prima e argilosa com que se fez a primeira parte deste opúsculo, fumando a memória que se quer viva, revivendo-a, recriando-a com a subtileza da frase.

Na estação do poema prepara no cadinho o orvalho, a substância com que vai alimentar a nova viagem, partindo, sempre, da terra e da pedra para a construção da memória, o fabrico da casa, deítico espacial, temporal e nominal.

A transcrição do passado por intermédio da evocação, entrelaça-se estreitamente com a análise do presente, mediante a atenção sobre as coisas, e os objectos contíguos, secundários diria, alegres, tristes. Os fragmentos da experiência que se inscrevem aqui na fantasmagoria das formas, reduzidas à sua mínima expressão, delineiam um quadro de sinais que têm um sentido intensamente alegórico, e é o impulso da escritura que leva ao duelo, e se sai, subtrai a tentação da melancolia:

13 – UMA CASA EM PEDRA

Uma casa em pedra é um lugar onde se fabricam

Os utensílios mais fraternos, talvez o lugar próprio

Para descobrir a nossa vocação para plantar lírios

À beira das veredas, no caminho interior do lar.

Nela se redescobre a teimosa mão do poder das cinzas

À lareira, num jarro de água sobre a mesa, o pão amassado

Na véspera, ante o alvoroço anónimo das crianças

Ao odor das leveduras ainda frescas, transfiguradas.

Dentro das pedras se erguem as vozes vindas da planície

Como se viessem da própria casa, do mais íntimo da terra,

Misturando-se o apelo das águas e as narrativas

De animais nocturnos, obscuros, na fronte das montanhas.

E é daí que se lê a premonição das estrelas circundando

O destino de ervas e bichos que se fundem aos processos

Por onde o vento soa, geométrico, um tempo sem data,

Uma verdadeira abstracção de objectos nus, imaginários.

A casa é o microcosmo ampliado, amplificado, porque são as memórias, diz o poeta, que sustentam a leveza do ar, / num exercício renovado de mistérios lentos / anunciadores dos sonhos [poema 15 – SÃO AS MEMÓRIAS QUE SUSTENTAM].

Nos poemas seguintes, os nºs 16, 17 e 18, o poeta regressa à terra, ao chão, ao seu chão, como que buscando na música florestal para a reunião no pandemónio, dirigindo, orquestrando com mestria os duendes da escrita, fazendo ecoar a palavra nobre sobre as árvores:

21 – ECO

As vibrações do ar pronunciam as palavras / num grito claro / de outras vozes, as nossas / que ressoam do interior de outros / e de ontem / no seu próprio reverberar.

Numa subestrutura os poemas dedicados, mesmo que falem da cidade, há uma ausência de urbanidade arquitectónica que a metáfora repõe através da morte e na reconstrução estética das coisas: a cidade é a casa, a terra, o chão que se viveu durante a existência: os afectos, as emoções dos ganhos e as emoções das perdas.

“[…]de olhar, por fim, a terra amada / à luz do sol resplandecente[…]” – 32 – CANTAI AINDA, renasce outra visão concertada na viagem que caminha para o termo da estação.

No último terço do percurso, na caminhada íntima e pública ao mesmo tempo, como o é toda a escrita, o poeta arrebata ao fogo o lume da palavra numa semântica multifacetada em que o nome «fogo» é transfigurado dezasseis vezes – ao longo do percurso 20 vezes –, quer tirando-o da lareira em construção quer subliminarmente: “[…]Ó omnipresente fogo[…]” 32 – VOANDO SOBRE A PENÍNSULA ; “[…]Este fogo brando lento[…]” 34 – POEMETO EM R MOLE; “[…]Amável cinza transluzente[…]” 40 – POEMA AO SOL NASCENTE; “Ave e seta como a luz / rasgando a bruma. / Lume sob a cinza[…]” 44 – POEMA AINDA; “[…]Fosforescência de ar[…]” 45 – ESTA LUZ APENAS CINZA.

A pedra, a terra, o fogo, elementos abrasivos do itinerário, vão compondo, rompendo o tempo, a memória, em cada poema transfigurando-se em novos sinais que o leitor multiplicará em cada leitura. Íntima e pública, portanto, desvela-se em cada um segundo a cultura e o saber adquiridos.

O trabalho deste discurso anuncia um autor que sabe trabalhar a palavra, com um discurso escorreito, uma boa utilização das metáforas, ou sinais conforme quisermos chamar-lhes

A poesia de Vieira calado é um edifício arquitectónico em constante (re)construção, onde as palavras sustentam a língua que prefigura os poemas habitados por legentes que se revêem na escrita da memória transfigurada. O edifício poético é um sistema discursivo onde o passeante, o leitor, percorre as vias diversificadas que se entrelaçam umas nas outras, com a comunicação possível de cada um, quantas as possibilidades há em todos.

O texto, embora dividido em três partes, conforma um todo onde os elementos pedra terra e fogo fazem o elo de ligação conferindo-lhe a unidade necessária para ser considerado um texto literário.

Como mero exercício estatístico e, para confirmar a leitura que eu fiz, não sendo uma análise crítica, mas uma simples apresentação de um livro de poesia, digo que a palavra pedra consta 6 vezes, a palavra terra consta 23 vezes e a palavra fogo 20 vezes.

É tudo. Agradeço ao autor ter-me proporcionado esta viagem, num itinerário preciso, com os pontos fundamentais no mapa do discurso poético, bem definidos.

José Félix


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domingo, dezembro 14, 2008

Tacto

A minha casa tem tacto.
Sublinho-lhe a pele misteriosa da memória
reconstruída na modificação adequada
da posição da mobília.
Entre uma discussão metafísica e outra
a escatologia ganha terreno na decoração
das cortinas e, como os chineses, prefiro
os desenhos para fora da janela
na corrupção dos olhos
que sonegam a intimidade alheia.
Vou tacteando a infância nas paredes velhas
vou passeando lubricamente pelos quartos de dormir
e sorrio na velhice uma casa imperfeita
já sem gente dentro, e onde mora
a solidão dos génios que ecoa
nas arestas, nos copos em cima da mesa de carvalho
nas fotografias amarelecidas, e nos olhares das pessoas
que se comprometeram no relâmpago
da máquina fotográfica.
O tacto é uma pronúncia simples de um verso
que tenteia no escuro uma quase luminosidade.

José Félix

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sábado, dezembro 13, 2008

a verdadeira poesia
para o geraldes de carvalho e antónio silva
(e para todos os carvalhos e todos os silvas do planeta)br>


a verdadeira poesia mistura-se na merda
dos políticos que engordam a barriga com a magreza dos pobres.
a verdadeira poesia é travesti e a puta da cova da moura
que chega cansada à damaia
depois de abrir as pernas uma dúzia de vezes ao dia.
a verdadeira poesia está no cócó dos pombos
que não se importam com as estátuas
de assassinos do povo venerados em dias particulares.
a verdadeira poesia é o dinheiro lavado dos bancos.
a verdadeira poesia é dos chulos que se acobertam pela noite
e, na sombra, contam as migalhas que recebem dos prostitutos imberbes.
a verdadeira poesia está na esmola pela luta contra o cancro, a epilepsia,
a diabetes, o cancro da mama, o cancro da próstata, a esclerose múltipla.
a verdadeira poesia está nos bancos de fome, na sopa dos pobres.
a verdadeira poesia está nas vivendas, primeiras e segundas
dos administradores de bancos e das companhias de seguros.
a verdadeira poesia está na última fila de deus; os drogados, os alcoólicos
as ninfomaníacas, os das depressões bipolares.
a verdadeira poesia está no fado triste e mal cantado de fadistas bêbados.
a verdadeira poesia está no púlpito das igrejas, de todas as igrejas
nas homílias dos bispos, na sura, na tora, no alcorão, em buda, em confúcio.
a verdadeira poesia está na puta que a pariu três vezes abortada.
a verdadeira poesia anda cocha, manca, mascarada de sandwich mcdonald.
a verdadeira poesia começou com dom afonso henriques a lutar contra a mãe.
a verdadeira poesia tem tosse e escarra verde e sangue.
a verdadeira poesia é corno, é veado, é boiola, é o presidente lula
o cavaco e o sócrates de muleta.
a verdadeira poesia é a merda que defecamos logo pela manhã.
a verdadeira poesia está no caixote de lixo bem acompanhada pela consciência.
a verdadeira poesia é uma maçã podre no meio de outras maçãs menos podres.
a verdadeira poesia é nos noticiários das televisões com caras jovens e bonitas
a anunciar a desgraça do planeta.
a verdadeira poesia está na camada de ozono.
a verdadeira poesia está no degelo dos pólos,
a verdadeira poesia é a nossa sacanagem.
a verdadeira poesia é o suicídio de um adolescente.
a verdadeira poesia é a pedofilia e os pedófilos, todos os pedófilos.

a verdadeira poesia és tu, cabrão, que és cornudo e finges que não sabes.
a verdadeira poesia é fingir que sabes latim e dizes frases feitas nos encontros literários.
a verdadeira poesia é comeres lagosta quando só podes comer peixe seco.

a verdadeira poesia é a viagem low cost.
a verdadeira poesia é a porra da vida que temos.
a verdadeira poesia é o viagra, o cialis, o levrita.
a verdadeira poesia é disfunção sexual.
a verdadeira poesia anda coxa à procura de muletas.
a verdadeira poesia.

josé félix

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