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segunda-feira, maio 11, 2009

"mesmo sem gente nenhuma que te ouça,

poema intrínseco dito a português e dentes,

a sangue desmanchado,

com a estria lírica a fervilhar de riscas

rudes, frescas, roucas,

tu que como que iluminas pela boca fora"

herberto hélder



o sangue que me es
corre da boca lassa

é uma frase que atravessa os lábios

como a águia de bonelli no voo picado sobre a presa.

coagula a palavra na voz surda, absurda

como a dor no baixo ventre do parto

ou da continência urinária , que enrouquece

a fala, aumenta o alfinete do dedo indicador

fazendo de conta que a acusação pessoaliza

a desistência da existência infligida.

para que me serve a luz se me cega

e como eu já disse isto mil e mais mil vezes

em frases estereotipadas ou em brincadeiras adultas.

queres versos? bebe a dor dos outros

e mitiga o seu sofrimento de ilusão.

queres a alegria dos outros? dá-te

sem cortar os dedos das mãos e os mamilos.

é intrínseco e português cerrar os dentes

que de tão cerrados e de tanto cerrar os dentes

perde-se a voz da infância

e a memória da adolescência frutificada.

quero um cavalo de corrida, de madeira,

com os olhos pintados de sangue

ah, e asas como as de ícaro

para que me perca no braseiro do sol.

eu quero isso, com urgência, e mais quase tudo

sem explicação ou filosofia barata.

eu já passei dos dez anos e comecei

a compreender tudo o que me rodeia.

que se dane clezio e a sua febre;

eu quero é uma boca que me explique tudo,

desde o sabor das amoras silvestres

ao riso de deus encharcado em crack

pó de anjo, heroína, haxixe e ecstasy.

tive um sonho. andava de mãos dadas

comigo próprio e acariciava-me no outro,

adolescente, infantil, puro e parvo por natureza.

um poema intrínseco, português

com a iluminação de toda a cegueira.

josé félix


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