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sexta-feira, junho 12, 2009

O meu veneno


Depois de um poema meu, helen de rose", ter sido censurado em Escritartes e Luso-Poemas, coloco aqui um poema do poeta cubano Reinaldo Arenas
(Holguin, 1943 - Nova Iorque, 1990).

CONTRIBUIÇÕES

Karl Marx
não teve nunca sem sabê-lo um gravador
estrategicamente colocado no seu sítio mais íntimo.
Ninguém o espiou do passeio da frente
enquanto rabiscava à vontade folhas e mais folhas.
Pôde inclusive dar-se ao luxo heróico de maquinar
pausadamente contra o sistema imperante.
Karl Mrax
não conheceu a retractação obrigatória,
não teve por que suspeitar que o seu melhor amigo
podia ser um polícia,
nem, muito menos, teve de se converter em polícia.
A pré-fila para a fila que nos dá direito a seguir na fila
onde afinal o que havia eram recargas para
agrafador («E já se acabaram, camarada!»)
também lhe foi desconhecida.
Que eu saiba
não sofreu uma imposição que o obrigasse a rapar-se
ou a extirpar a sua anti-higiénica barba.
A sua época não o cominou a esconder os seus manuscritos
do olhar de Engels.
(Por outro lado, a amizade destes dois homens
nunca foi «preocupação moral» para o Estado.)
Se alguma vez levou uma mulher para o seu quarto
não teve de guardar os papéis debaixo do colchão e,
por cautela política,
lhe fazer, enquanto a acariciava, a apologia do Czar da Rússia
ou do Império Austro-Húngaro.
Karl Marx
escreveu o que pensou
pôde entrar e sair do país,
sonhou, meditou, falou, tramou, trabalhou e lutou
contra o partido ou a força oficial imperante na sua época.
Tudo isso que Karl Marx pôde fazer pertence já
à nossa pré-história.
As suas contribuições para a época contemporânea foram
imensas.

Reinaldo Arenas, Poesia Cubana Contemporânea, Dez poetas, selecção, prefácio, notas, Pedro Marquês de Armas, Tradução, Jorge melícias, Antígona, 2009

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