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quarta-feira, junho 10, 2009

O meu veneno


Eu peço as minhas escusas mas volto à carga com o processo de censura nos sítios Escritartes e Luso-Poemas. Até agora não recebi qualquer resposta à minha interpelação em Escritartes o que dimensiona falta de carácter por a Administração do sítio ou quem a representa, não ter feito um pedido formal de desculpa por terem devassado o meu endereço de correio naquele espaço. Não o fiz publicamente por uma questão de simpatia para com alguns membros daquele grupo mas não me restará outra alternativa se, entretanto, não receber uma mensagem que seja a falar sobre o assunto.
Subliminarmente já foram enviados alguns textos acerca do assunto e a Administração do sítio ou quem a representa fez, até agora, ouvidos moucos.
A devassa de correio, seja em papel seja em modo digital é crime e punido nos termos da lei.

RENGA DE ANIBAL BEÇA E JOSÉ FÉLIX
Em memória do haijin Wenceslau de Moraes,
quem primeiro cultuou o haicai em Portugal.




1.
Silêncio no lago -
o vento frio vai levando
o que voa leve.

Anibal Beça

a pétala de jasmim
desliza na borla da água

josé félix


2.
Chuva passageira -
as notícias de ontem vão
da sarjeta ao bueiro

Anibal Beça

No barquinho de papel
viajam as mãos meninas


José Félix

3.
Casa abandonada -
apenas se ouve o cri-cri
de um grilo na hera

Anibal Beça

na lombada da janela
a gaiola pequenina.

josé félix


4.
O espelho reflete
um rosto desconhecido -
outro outono passa.

Este já não é o pássaro
que cantava claro e forte.

Anibal Beça


5.
no cair da folha
parte a última andorinha -
O sol perde o brilho.

José Félix

À toa, à toa, uma lua
cresce ao fundo da campina

Anibal Beça


6.
Nas folhas do livro
uma pétala de rosa -
palavras antigas.

José Félix

No parque um menino joga
um pouco de milho aos pombos

Anibal Beça


7.
As rugas cativam
as mãos frias no cabelo -
círculos de água.

José Félix

Formigas em fila carregam
as últimas folhas verdes

Anibal Beça


8.
No chão do pomar
se vê um outro crepúsculo -
os caquis maduros

Anibal Beça

à sombra do caquizeiro
vão caminhando os sapatos.

José Félix


9.
Pouquíssimos talos
oscilam na grama seca -
Vento de outono.

Anibal Beça

o rato do campo esconde-se
no ninho dos perdigotos

José Félix


10.
O que tanto falam
estes velhos na pracinha?
Palavras, palavras

Anibal Beça

As tábuas da mesa antiga
tremem sob os nós dos dedos


José Félix

11.
Leveza de vôo -
Ah, se as palavras pousassem
como esta libélula

Anibal Beça

As folhas secas deslizam
Sobre a água transparente

José Félix

12.
A tarde se põe
em tons vivos de amarelo-
jardim de crisântemos

As nuvens passam ligeiras
contrárias ao caminhar

Anibal Beça


13.
Um rebento novo
à sombra da bananeira-
Um velho e um jovem

Na celha a roupa lavada
espera pelo varal

José Félix

14.
Tarde de outono -
o bambu se curva ao vento
mas não se quebra

Anibal Beça

Voa, voa andorinha
leva o caminho do sul.

José Félix

15.
Os patos selvagens
em viagem descem famintos -
plantação de arroz

De porta em porta o romeiro
estende sua tigela

Anibal Beça

16.
O tosquiador
pousa a tesoura afiada -
ovelhas na várzea

Batem teares antigos
guiando o fio de lã.

José Félix

17.
A primeira lua
tão cheia e tão amarela!
Bênçao para os olhos.

Prilampos no quintal
e a Via Láctea tão nítida

Anibal Beça

18.
O velho bonsai
é um jogo de paciência -
sombra na parede.

As palavras de Bashô
estão coladas no tempo.

José Félix

19.
Na manhã de frio
um sabiá na neblina
chama pelo sol

Depois de uma noite longa
muitas luzes ainda acesas

Anibal Beça

20.
Na manhã de orvalho
gotas de água no pé de arroz -
um colar de pérolas.

Na margem do rio Sado
duas sombras de flamingos.

José Félix

21.
Eclipse de outono -
refletida na parede
meia-lua apenas.

Anibal Beça

No plátano dois pardais
sacodem as asas húmidas

José Félix


22.
Finzinho de outono -
Ah, cigarra cantadora
já cantas tão longe...

Anibal Beça

Os olhos do gato seguem
as sombras por entre os choupos.

José Félix

23.
O primeiro sol
leva as asas da cigarra -
juntam-se as formigas

Os meninos camponeses
debulham o milho na eira

José Félix

24.
Uma folha seca
pousa no chapéu do ancião -
Visita ao asilo

Em cada nó na tarrafa
uma outra história tecida

Anibal Beça

25.
Passa um funeral -
murcha a última papoila
na seara de Beja.

Nos beirais alentejanos
os ninhos estão vazios.

José Félix

26.
Na noite comprida
vagarosos são os passos
até o banheiro

Há tempos que o sono solto
se interrompe mais de uma vez

Anibal Beça


27.
Casa abandonada -
nas portas escancaradas
entram folhas secas.

A furgoneta carrega
uma cadeira e a mesa.

José Félix


28.
Trinados de pássaros
embalam velhas memórias -
calmo cemitério

O vento nas folhas secas
inventa um murmúrio de ondas

Anibal Beça

29.
Bengala esquecida
no tronco da cerejeira -
regresso às origens.

Rasto de passos pesados
marcam os sulcos da terra.

José Félix

30.
Noite longa -
a lua cheia é a mesma
mas não os ruídos

O que se ouvia tão forte
agora se ouve baixinho

Anibal Beça

31.
Amanhece o dia -
há montes de folhas secas
na borla do lago

os pescadores furtivos
acoitam-se para a sesta

José Félix

32.
no dia de outono
um novo olor no jardim -
orquídea florida.

As abelhas jandaíras
preparam nova colméia

Aníbal Beça

33.
Aroma a tabaco -
os apicultores limpam
com fumo os cortiços.

Ouve-se o zunir das abelhas
a rondar o campo de urzes

José Félix


34.
Antes da chuva
folhas arranham a porta -
Vento de outono.

Anibal Beça

Correm coelhos no montado
pouco antes de anoitecer.

José Félix


35.
Esta lua cheia
também estava por lá -
primeira paixão.

Anibal Beça

Aqui os bicos da lua
arredondam ao contrário

José Félix

36.
O outono se vai -
à porta entre folhas secas
a carta esperada

Anibal Beça

Na mesa de castanheiro
há muitas cartas antigas

FIM


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