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quarta-feira, julho 01, 2009













Apresentação do livro "Canção do Exílio" de Gonçalo B. de Sousa no dia 27 de Junho de 2009

Marina Tsvetáieva disse que “todos os poetas são judeus”. Este verso retrata fielmente o criador deste poemário que percorre um caminho de exílio entre o «arquipélago», «junto à fonte» e «do caminho».
O arquipélago é onde o autor se ilha em cada lugar. A ilha é o isolamento físico transportado para a escrita poética descobrindo os sinais presos no território, saltando a fronteira imaginária de ser, estar só, mesmo que a além fronteira se chame Alentejo.

“a minha alma, tanta vez a procurei no Alentejo, /Entre as ilhas brancas. /O oceano, ora é verde / Ora acastanhado pelos aluviões de rios invisíveis. […]A minha alma nunca a vi, mas sei que existe.”

O autor, ao criar o seu exílio interior, procura-se através da palavra que se anima, esta “anima” que vagueia numa tarde, junto do Guadiana, que ele sabe que está lá, mas, pensa ser ainda cedo para escutar “a secreta linguagem do rio”.

Toda a escrita poética, até pelo acto criador, é o confronto com o vazio. As ilhas, o arquipélago, são a brancura das folhas onde o autor começa por estabelecer a diferença entre o vazio e nada. Este vazio vai-se preenchendo com o discurso poético, formatando, na elaboração, do real ou sobre o real, uma disponibilidade que é inesgotável, aparentemente.

Seja à “à beira do açude”: “as letras apagar-se-ão de todo o mármore, / Mas a sombra no açude há-de perpetuar-se / No sangue das águas”

A memória, essa função terrível e boa é que faz escrever sobre tudo e sobre o todo. A memória vai trabalhando para “Quando eu souber / e, algures no caminho, / for o tempo destas coisas” até porque, “da clausura da terra ergue-se a esperança nova”.

O poeta vai coleccionando palavras, versos no caos, onde elas estão sem dono[pág. 12]para construir o exílio mental, neste caso, e dito por Tsvetáieva, apesar desta ter tido um exílio verdadeiramente físico, concreto, objectivo, de diáspora judaica.
A procura da fonte começa no poema “antes, o silêncio”, dedicado ao poeta José Gil.
“[…] ausente, a palavra branca / Transtorna a margem do abismo. Não temam / A queda – anjos somos, ou deuses: / Asas de ouro ornam os nossos tornozelos. […]”

A escrita poética é um dos últimos redutos em que o espírito se pode espraiar, ainda que no sentido metafórico. Em linguagem. Numa linguagem que reassuma a função originária de nomear as coisas do mundo “em que consiste a essência da poesia” (61), segundo Gadamer, citado por Gianni Vattimo, em O Fim da Modernidade: Niilismo e Hermenêutica na Cultura Pós-Moderna.

Será a literatura a alma dos tempos modernos?
O autor tacteia a terra, ausculta o rumor da água, cria uma respiração interior até que venha o «sopro» e apareça a palavra ajustada ao tacto, à auscultação, ao acto visionário da criação.

O poeta diz: “o exílio é o chão em movimento, / O caminho balizado de hieráticas aves.”

Noutro poema diz, ainda: “há um rio que separa o mundo, / E os que o atravessam, morrem. / Os que o não fazem, não são mais / Que espectros, vogando à luz do sol”

A luta entre “estar” e «não estar», entre «ir» e «ficar» cria uma cosmografia que pode ser tanto o microcosmo com que se debate o autor como o macrocosmo do desejo.


Sentado junto à fonte, e este “junto à fonte” prevê um movimento no caminho do discurso de exílio, em que o presente é a excelência do trabalho da memória futura: “estas coisas do presente, meus amigos, são a nossa eternidade”, diz.
Vai descobrindo lugares, chão, metáforas que são colocadas devidamente na descoberta de uma fronteira cada vez mais alargada, pedindo para centrar “o olhar no alvo até que nada mais vejas / senão a estrela a alcançar “
Traça rotas, rumos, “o corpo irá aonde puder[…]”; “.o Mundo / é o seu secreto e partilhado jardim”.

Andarilho, frugal, o desejo é tudo, pouco, ou nada: “ as coisas que desejo cabem todas á mesa / de uma cozinha Rústica”ou “tudo é tão simples que me sinto ridículo, / por todas as coisas que acumulei na cabeça”
Há uma alma «anima» constante no discurso, uma espiritualidade a roçar o impressionismo em poemas onde o tratamento da morte aparece. Um tratamento sacro-profano, sem preconceitos, colocando a pluralidade divina, “agradece aos deuses o seu favor” e “que a distância que o separa de Deus / é só a do estender da mão”.

O poeta escreve o que todo o poeta deve escrever: da morte e do amor. Ainda da morte, uma certa ironia perpassa, por exemplo no poema da página 34: “hoje apetece-me escrever o meu epitáfio / ne ir morrer à cama, simplesmente. / Os amigos farão o favor de verter umas lágrimas
Por mim, e dirão palavras bonitas / Sobre a minha suposta campa / (deixarão também umas rosas. É costume.

Amanhã poderei renascer, enfim, e voltar / Ao vosso convívio. Juntos poderemos então / Rir da volubilidade da vida. / E a morte terá outro sentido”

Sobre a volubilidade da vida já o escreveram Arquíloco, poeta do século VII e Horácio, século I a.C. seu imitador tanto na métrica como na sátira.

A morte, ainda, o poema «melancólica» é um quase aforismo: “entristece sempre quem está vivo: / Dói-lhe expor-se ao mundo. / Ninguém se forra dos vermes, / Somente, morto, os não sente.”


O poeta procura o caminho; o poeta procura vários caminhos que se cruzam na descoberta e na emoção, formando uma teia de diferença onde, num único livro, apesar da unidade referencial, se exerce a mudança tão necessária a quem escreve. Quem muda permanece na fidelidade de mudança intrínseca ao próprio homem.
A obra tem hoje uma ideia segundo a época em que vivemos; será com outra ideia e com outro espírito que alguém lerá esta obra. Por isso devemos reflectir sobre a obra em cada momento da sua história. Reflecti-la em cada momento é manter a fidelidade a si próprio. Apesar deste texto não ser uma crítica literária, confirmo aquilo que Casais Monteiro disse: “não há duas críticas literárias iguais sobre a mesma obra; só as más críticas se assemelham umas às outras.” Também uma apresentação de um livro terá, certamente, um texto diferente segundo o apresentador do livro.
O exílio construído até aqui continua nos caminhos traçados pelo poeta: “a força do meu pé cresce para sul”.

A conversa onde «tu» se faz excelente, o outro é o receptor da mensagem para não haver um monólogo e é como uma forma de catarse para transmutar em ouro o metal vil.
“antes são as lágrimas, / o exílio itinerante, / até que a terra floresça / e o fruto venha às mãos pacientes”
É uma espera de paciência que doba a palavra em versos até que que se a promessa de Deus.

É interessante a mistura ideográfica, por exemplo, no poema V de “Caminhos” onde o exílio é a ausência da amada tão bem cantada pelos poetas do Al- Andaluz como Al Muthamid, Ibn Amar, Ibn Qasi e outros.
Do exílio, aqui, não se trata apenas de demora, de delonga, mas antes da coisificação que tenta rever num objecto o concerto total de onde provém o ritmo, o fruto mesmo da estilização. Como em Ibn Sara a demora da observação, “ao entardecer do claro dia / repousa com a amada, sob as copas” parece querer transfigurar o objecto que se contempla.
Perpassam dicotomias como «o fogo tempera o metal e o purifica”, “toda a morte anuncia m nascimento”, “a vitória forja-se na derrota”, “na mão esquerda o corvo, na direita a pomba”.
O poeta, apesar de tudo, e da constante procura da fuga, permanece na ilha, nas ilhas, no arquipélago, junto à fonte a procurar caminhos, sejam eles quais forem, mesmo “quando a tua água for um espelho / a ave pousar-te-á no ombro. Porque, como diz o poeta, “cada coisa e lugar têm o seu tempo”
Procurei ser esclarecedor, reclamando os valores estéticos da obra. Procurei penetrar na obra, segundo a minha cultura, segundo a minha integração social, segundo a minha informação e conhecimento.
Ao criador deste livro de poemas interessa-lhe mais a comunicação do que o entendimento. O poeta não precisa de recorrer a um método, a uma verdade, a um sistema, para ir ao encontro do que impõe este livro à nossa admiração(Casais Monteiro, Clareza e Mistério da Crítica).

Concluo: "Todos os poetas são judeus" – Marina Tsvétaieva.
José Félix

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