Quinta-feira, Janeiro 22, 2009
palavra parelha[1]
a palavra parelha lava a língua
leva no verso a água que transborda
do lábio limpo, a lavra que perdura
na lavradura da semente grada
engravidada com a persistência
a paciência com que a boca fala
palavra emparelhada, bois na canga
opada a fanga com a frase culta
exulta no caminho da emoção
o canto, a escritura, a alegria
─ texto que se agarra à margem árida
concerta outra parelha na linguagem
josé félix
[1] título do último livro do poeta aníbal beça
aníbal beça, "palavra parelha", edições gato branco, 2008, brasil
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Genocídio
em masada
entre ein-gedi e sodoma
oiço longe o shophar um canto rouco
alonga na judeia o deserto.
a guerra não é feita ao sopro do vento
e as pedras multiplicam-se por mil
nas mãos dos que ali são
há mais de três mil e quinhentos anos
herodes edomita de esaú
triador patriota
defende a palestina
às mãos de augusto
encimando o castelo
da resistência e auto flagelação.
já longe vai o tempo dos amores morenos
via-te correr pelos jardins
gazela
com um ramo de mirra entre os cachos maduros
os seios onde o mel adoçou os meus lábios
anah o pescoço esbelto
como uma torre de marfim
enfeitada
de safiras
não há campos de cedros
e o resto dos que existem
queimam
na fogueira de campos de refugiados.
o líbano o doce líbano
dos cipestres dos lírios
o forno onde se queimam ódios
filhos filhas
de uma só pátria.
em masada
molho as pedras de vários mil anos
como um gamo ferido desço
os quatrocentos metros que me separam
das emoções.
hoje não vou ao muro das lamentações.
jacob kruz
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
um dia vi a carmo estupefacta
a olhar para o esboço da falésia.
o olhar de precipício anunciava
uma vertigem de sinceridade
que nos momentos de loucura
mostram o rosto iluminado e puro
conhecimento da verdade lida
nos escombros do pensamento
─ fábrica da ilusão inacabada
no cemitério que é das coisas feitas.
submeteu os passos à negação
quando a água lhe lavou as mágoas
o mar lhe entrou no corpo e o dia
deixou de ser notícia particular.
josé félix
Domingo, Janeiro 11, 2009
O meu veneno
A hipocrisia da esquerda
Tem-se dito e escrito muita coisa acerca da guerra que opõe o Estado de Israel e o Hamas. Uma grande percentagem das notícias é falaciosa, falta à verdade e é, normalmente, parcial e pró Hamas.
Durante o período de tréguas e enquanto o Hamas lançou "rockets", mísseis Qassam e outros mísseis de origem chinesa para o Estado de Israel, não se viu nem se ouviu um lamento, uma revolta contra o terrorismo do Hamas que é uma organiação que não aceita o Estado de Israel, o único estado democrático da região.
Inês Pedrosa diz que os mísseis do Hamas são de chocolate e, por isso, a esquerda cheia de complexos
inibe-se e fica constrangida para denunciar os crimes cometidos por esta organização contra o Estado hebreu. Isto, por um lado.
Por outro lado, não se vê a esquerda denunciar as ditaduras islâmicas em África como, por exemplo, a do Sudão que comete genocídio contra os habitantes da região do Darfur; não se revoltam contra os regimes ditatoriais árabes que espoliam o seu povo, onde as mulheres não têm direitos políticos, civis e são meros sacos de reprodução e vivem na qualidade de escravos; não falam na ditadura da Mauritânia onde há escravatura dos não muçulmanos.
Parafraseando, ainda, Inês Pedrosa: "Israel é uma nação, o Hamas é um gangue."
o cânone da corrente
vejo-te nascer de um lábio ferido.
na humidade que poisas na flor
sossega a grandeza da humanidade.
não há plebiscito para a condição humana
mesmo quando se perverte o estabelecido.
para que nasças basta um cristal de água
adormecer-te a semente
e a sede te visite religiosamente
segundo o cânone da corrente.
o teu lábio curar-se-à de seiva.
josé félix
Quinta-feira, Janeiro 01, 2009
flores visitem os teus dedos
delas nascendo frutos!
francisco coimbra
num jardim, em córdova
deste-me os teus olhos
para ver as flores.
tinham a substância
da fala menor
e a melancolia
dos teus longos dedos
─ é o eco dos frutos ─
veio para mim
limpo nascituro
no início da luz.
é, talvez, por isso
que no teu olhar os
frutos nascem cedo.
josé félix



