Domingo, Março 29, 2009
forma de vida
se um dia perceberes
coisas essenciais
da água, se beberes,
verás muitos sinais
da fala capciosa
de uma dor voluntária,
talvez harmoniosa
e simples, solitária.
não acoites condições;
deixa que a língua nasça
no travo da bebida.
há casos aos milhões
que bebem da desgraça
uma forma de vida
josé félix
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se um dia perceberes
coisas essenciais
da água, se beberes,
verás muitos sinais
da fala capciosa
de uma dor voluntária,
talvez harmoniosa
e simples, solitária.
não acoites condições;
deixa que a língua nasça
no travo da bebida.
há casos aos milhões
que bebem da desgraça
uma forma de vida
josé félix
Sábado, Março 14, 2009
Do acontecido e da falta de acontecer[1]
Todos os dias a acompanho com o olhar.
Desce a São Filipe Nery, vespertina,
com as tranças dinamarquesas, rubras
de chama de um roble na noite de Natal.
Chama-se Mary, Lucy ou Astrid,
se calhar Maria, de Mirandela.
Os jornais, e revistas atrasadas,
acompanham o volume de Mao,
tão vermelho como o cabelo dela.
A simplicidade do vestuário
retrata a profissão que desmente,
quando conversamos ocasionalmente
na livraria Trama ou na Pó dos Livros
a cocegar as folhas e os poemas
que se perdem nas prateleiras de madeira.
Nunca falámos de política
nem de questões sociais e nem sei qual é
o partido a que pertence nem a tribo urbana
à qual ela, provavelmente, se acomoda.
O ar de proletário de sobrevivência
acentua-lhe o rosto feminino
de adolescente triste e melancólica,
a pensar num país distante e diferente
onde a pronúncia da língua é doce
─ doce é a pronúncia de todas as línguas
que amamos do doce chão umbilical.
às vezes dá ares de querer modificar a sociedade
exagerando na passagem dos sinais de trânsito
quando passa ao mesmo tempo que os automóveis
ouvindo impropérios dos condutores à sua honra,
que à tardinha, com a ansiedade acumulada,
querem regressar a casa mais cedo.
Despreocupada e jovem, com olhos futuros
aquece a rua até à pizzaria
para comer uma refeição barata.
É assim todos os dias quando Turner
desenha o céu nas tardes frias
e as reflexões são mais negativas
e os deuses se recolhem desinteressados
da condição humana, e aguardam nos templos
os fiéis a pronunciarem-se impotentes
perante a adversidade construída.
Na Poesia Incompleta informaram-me
que a Mary não é Mary, nem é Lucy,
tão pouco é Astrid, apesar das tranças rubras
de qualquer jovem dinamarquesa.
Tem o nome de Lucília, nome
bem português e filha de pais abastados.
Morreu hoje de overdose com Xanax 1000
num quarto alugado na zona de Alfama
ali perto do miradouro da Graça
onde se vê Lisboa a sorrir até ao Tejo
ao som de um fado que canta a tristeza
daqueles que se perdem na viela das lágrimas.
não sei o que farei agora, em Lisboa,
já que o poema morreu estrangulado
pela jovem com jornais, e revistas atrasadas,
o livro de Mao a enfeitar a subtileza
do vestuário proletário a mentir
a verdadeira profissão da juventude
que àquela hora, quando o sol beija
as esquinas das casas, passeava o corpo
pelos olhares do desejo e da febre.
na livraria Trama folheio um livro
lendo a sombra das palavras que mentem.
José Félix
[1] O acontecimento ganha realidade pela circunstância de ser relatado
Daniel Boorstin "The Image" - A Guide to Pseudo-Events in America
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Todos os dias a acompanho com o olhar.
Desce a São Filipe Nery, vespertina,
com as tranças dinamarquesas, rubras
de chama de um roble na noite de Natal.
Chama-se Mary, Lucy ou Astrid,
se calhar Maria, de Mirandela.
Os jornais, e revistas atrasadas,
acompanham o volume de Mao,
tão vermelho como o cabelo dela.
A simplicidade do vestuário
retrata a profissão que desmente,
quando conversamos ocasionalmente
na livraria Trama ou na Pó dos Livros
a cocegar as folhas e os poemas
que se perdem nas prateleiras de madeira.
Nunca falámos de política
nem de questões sociais e nem sei qual é
o partido a que pertence nem a tribo urbana
à qual ela, provavelmente, se acomoda.
O ar de proletário de sobrevivência
acentua-lhe o rosto feminino
de adolescente triste e melancólica,
a pensar num país distante e diferente
onde a pronúncia da língua é doce
─ doce é a pronúncia de todas as línguas
que amamos do doce chão umbilical.
às vezes dá ares de querer modificar a sociedade
exagerando na passagem dos sinais de trânsito
quando passa ao mesmo tempo que os automóveis
ouvindo impropérios dos condutores à sua honra,
que à tardinha, com a ansiedade acumulada,
querem regressar a casa mais cedo.
Despreocupada e jovem, com olhos futuros
aquece a rua até à pizzaria
para comer uma refeição barata.
É assim todos os dias quando Turner
desenha o céu nas tardes frias
e as reflexões são mais negativas
e os deuses se recolhem desinteressados
da condição humana, e aguardam nos templos
os fiéis a pronunciarem-se impotentes
perante a adversidade construída.
Na Poesia Incompleta informaram-me
que a Mary não é Mary, nem é Lucy,
tão pouco é Astrid, apesar das tranças rubras
de qualquer jovem dinamarquesa.
Tem o nome de Lucília, nome
bem português e filha de pais abastados.
Morreu hoje de overdose com Xanax 1000
num quarto alugado na zona de Alfama
ali perto do miradouro da Graça
onde se vê Lisboa a sorrir até ao Tejo
ao som de um fado que canta a tristeza
daqueles que se perdem na viela das lágrimas.
não sei o que farei agora, em Lisboa,
já que o poema morreu estrangulado
pela jovem com jornais, e revistas atrasadas,
o livro de Mao a enfeitar a subtileza
do vestuário proletário a mentir
a verdadeira profissão da juventude
que àquela hora, quando o sol beija
as esquinas das casas, passeava o corpo
pelos olhares do desejo e da febre.
na livraria Trama folheio um livro
lendo a sombra das palavras que mentem.
José Félix
[1] O acontecimento ganha realidade pela circunstância de ser relatado
Daniel Boorstin "The Image" - A Guide to Pseudo-Events in America
Quarta-feira, Março 04, 2009
Intermitência
O fogo, a remissão da palavra
que aquece e esfria
no sopro dos lábios;
o tronco rubro da fala no trote
da égua que fustiga o vento.
É um cigarro a vida que queima
na lâmina do caminho;
roble de cinza sob e sobre a semente
que grada no eco de um grito.
Que margem resta na folha subtil
onde arde a nervura da escrita ─
alavanca da memória que castiga o corpo,
a flor dos olhos─, e na paciência da mágoa
o velho e o menino têm o rosto comum?
José Félix
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O fogo, a remissão da palavra
que aquece e esfria
no sopro dos lábios;
o tronco rubro da fala no trote
da égua que fustiga o vento.
É um cigarro a vida que queima
na lâmina do caminho;
roble de cinza sob e sobre a semente
que grada no eco de um grito.
Que margem resta na folha subtil
onde arde a nervura da escrita ─
alavanca da memória que castiga o corpo,
a flor dos olhos─, e na paciência da mágoa
o velho e o menino têm o rosto comum?
José Félix



