Peço desculpa aos meus leitores mas enquanto a polémica existir na Rede acerca do poema ele será colocado, sempre, aqui, de vez em quando.
Uma descrição ecfrástica é uma descrição literária de uma obra não literária. A palavra écfrase, do grego ecphrasis quer dizer «recriação». As descrições ecfrásticas já vêm desde Dionisos de Halicarnasso (seculo I a.C)e foi utilizada por Homero, Virgílio, Keats. A écfrase " conduz-nos a um exercício reconstrutivo do que foi examinado, querendo interferir subjectivamente nas qualidades do objecto."
O meu amigo e poeta Xavier Zarco, editor de Temas Originais, Lda saiu a terreiro em Escritartes para defender a pluralidade de expressão depois de eu próprio ter sido censurado num poema com o título "helen de rose" que está em vários sítios da Rede. O poema em questão só foi censurado e apagado em foruns dirigidos e administrados por cidadãos portugueses.
Já disse que após o meu poema ter sido retirado pedi para apagarem o meu perfil, bem como os meus textos.
Aqui está uma prova de uma atitude censória e de perseguição a quem defende o pluralismo de espressão, consagrado no texto fundamental da Constituição da República Portuguesa. O poeta Xavier Zarco foi excluído de Escritartes após troca de mensagens com uma «Moderadora Global» do sítio que começou por colar algumas palavras como se fossem quadras, de muito mau gosto e sem qualidade literária parecendo uma dor de varizes que tivesse que aquietar e,por fim, bloqueou o tópico respectivo.
Se excluiu o perfil de Xavier Zarco, o mínimo que se exige a um carácter bem formado é que se apague a informação adjacente. No todo, resta o comentário de Júlio Saraiva, sempre pertinente.
O meu poema está em vários sítios na Rede, brasileiros e portugueses. Só nos dois únicos sítios dirigidos e administrados por cidadãos portugueses é que o meu poema foi retirado, sem apelo, vergando a cerviz a um «avatar» que faz da psicopatia o seu alimento.
Hoje, o sítio está indisponível, até para novos assinantes, o que prova a incapacidade administrativa do sítio em arcar com as responsabilidades das atitudes tomadas.
Além disso, a «Moderadora Global» fechou o blogue pessoal dizendo que foi devido a um vírus.
É o medo e o constrangimento em receber notícias acerca deste e de outros assuntos semelhantes.
Resta-me agradecer a abertura de sítios do Brasil que não alinharam nestes actos de censura e têm tido a abertura essencial o que demonstra, por isso mesmo, um desenvolvimento cultural que Portugal ainda não atingiu.
a casa é o precipício onde a infância morre na traição do fruto. é de passagem, a casa, na escrita, reconstruída ruga a ruga com a parcimónia da literatura. os quartos, a salinha, o corredor, um vaso velho com papeis inúteis e até a voz da família ausente está presente no eco das paredes com a fotografia de duendes a segredar-nos conversas. a casa: envelhece com a idade de quem a habita na memória, mesmo que a infância permaneça viva, ténue.
José Félix, Teoria do Esquecimento, Temas Originais, Lda, Coimbra, 2009
Depois de um poema meu, helen de rose", ter sido censurado em Escritartes e Luso-Poemas, coloco aqui um poema do poeta cubano Reinaldo Arenas (Holguin, 1943 - Nova Iorque, 1990).
CONTRIBUIÇÕES
Karl Marx
não teve nunca sem sabê-lo um gravador
estrategicamente colocado no seu sítio mais íntimo.
Ninguém o espiou do passeio da frente
enquanto rabiscava à vontade folhas e mais folhas.
Pôde inclusive dar-se ao luxo heróico de maquinar
pausadamente contra o sistema imperante.
Karl Mrax
não conheceu a retractação obrigatória,
não teve por que suspeitar que o seu melhor amigo
podia ser um polícia,
nem, muito menos, teve de se converter em polícia.
A pré-fila para a fila que nos dá direito a seguir na fila
onde afinal o que havia eram recargas para
agrafador («E já se acabaram, camarada!»)
também lhe foi desconhecida.
Que eu saiba
não sofreu uma imposição que o obrigasse a rapar-se
ou a extirpar a sua anti-higiénica barba.
A sua época não o cominou a esconder os seus manuscritos
do olhar de Engels.
(Por outro lado, a amizade destes dois homens
nunca foi «preocupação moral» para o Estado.)
Se alguma vez levou uma mulher para o seu quarto
não teve de guardar os papéis debaixo do colchão e,
por cautela política,
lhe fazer, enquanto a acariciava, a apologia do Czar da Rússia
ou do Império Austro-Húngaro.
Karl Marx
escreveu o que pensou
pôde entrar e sair do país,
sonhou, meditou, falou, tramou, trabalhou e lutou
contra o partido ou a força oficial imperante na sua época.
Tudo isso que Karl Marx pôde fazer pertence já
à nossa pré-história.
As suas contribuições para a época contemporânea foram
imensas.
Reinaldo Arenas, Poesia Cubana Contemporânea, Dez poetas, selecção, prefácio, notas, Pedro Marquês de Armas, Tradução, Jorge melícias, Antígona, 2009
Eu peço as minhas escusas mas volto à carga com o processo de censura nos sítios Escritartes e Luso-Poemas. Até agora não recebi qualquer resposta à minha interpelação em Escritartes o que dimensiona falta de carácter por a Administração do sítio ou quem a representa, não ter feito um pedido formal de desculpa por terem devassado o meu endereço de correio naquele espaço. Não o fiz publicamente por uma questão de simpatia para com alguns membros daquele grupo mas não me restará outra alternativa se, entretanto, não receber uma mensagem que seja a falar sobre o assunto.
Subliminarmente já foram enviados alguns textos acerca do assunto e a Administração do sítio ou quem a representa fez, até agora, ouvidos moucos.
A devassa de correio, seja em papel seja em modo digital é crime e punido nos termos da lei.
RENGA DE ANIBAL BEÇA E JOSÉ FÉLIX Em memória do haijin Wenceslau de Moraes, quem primeiro cultuou o haicai em Portugal.
1. Silêncio no lago - o vento frio vai levando o que voa leve.
Anibal Beça
a pétala de jasmim desliza na borla da água
josé félix
2. Chuva passageira - as notícias de ontem vão da sarjeta ao bueiro
Anibal Beça
No barquinho de papel viajam as mãos meninas
José Félix
3. Casa abandonada - apenas se ouve o cri-cri de um grilo na hera
Anibal Beça
na lombada da janela a gaiola pequenina.
josé félix
4. O espelho reflete um rosto desconhecido - outro outono passa.
Este já não é o pássaro que cantava claro e forte.
Anibal Beça
5. no cair da folha parte a última andorinha - O sol perde o brilho.
José Félix
À toa, à toa, uma lua cresce ao fundo da campina
Anibal Beça
6. Nas folhas do livro uma pétala de rosa - palavras antigas.
José Félix
No parque um menino joga um pouco de milho aos pombos
Anibal Beça
7. As rugas cativam as mãos frias no cabelo - círculos de água.
José Félix
Formigas em fila carregam as últimas folhas verdes
Anibal Beça
8. No chão do pomar se vê um outro crepúsculo - os caquis maduros
Anibal Beça
à sombra do caquizeiro vão caminhando os sapatos.
José Félix
9. Pouquíssimos talos oscilam na grama seca - Vento de outono.
Anibal Beça
o rato do campo esconde-se no ninho dos perdigotos
José Félix
10. O que tanto falam estes velhos na pracinha? Palavras, palavras
Anibal Beça
As tábuas da mesa antiga tremem sob os nós dos dedos
José Félix
11. Leveza de vôo - Ah, se as palavras pousassem como esta libélula
Anibal Beça
As folhas secas deslizam Sobre a água transparente
José Félix
12. A tarde se põe em tons vivos de amarelo- jardim de crisântemos
As nuvens passam ligeiras contrárias ao caminhar
Anibal Beça
13. Um rebento novo à sombra da bananeira- Um velho e um jovem
Na celha a roupa lavada espera pelo varal
José Félix
14. Tarde de outono - o bambu se curva ao vento mas não se quebra
Anibal Beça
Voa, voa andorinha leva o caminho do sul.
José Félix
15. Os patos selvagens em viagem descem famintos - plantação de arroz
De porta em porta o romeiro estende sua tigela
Anibal Beça
16. O tosquiador pousa a tesoura afiada - ovelhas na várzea
Batem teares antigos guiando o fio de lã.
José Félix
17. A primeira lua tão cheia e tão amarela! Bênçao para os olhos.
Prilampos no quintal e a Via Láctea tão nítida
Anibal Beça
18. O velho bonsai é um jogo de paciência - sombra na parede.
As palavras de Bashô estão coladas no tempo.
José Félix
19. Na manhã de frio um sabiá na neblina chama pelo sol
Depois de uma noite longa muitas luzes ainda acesas
Anibal Beça
20. Na manhã de orvalho gotas de água no pé de arroz - um colar de pérolas.
Na margem do rio Sado duas sombras de flamingos.
José Félix
21. Eclipse de outono - refletida na parede meia-lua apenas.
Anibal Beça
No plátano dois pardais sacodem as asas húmidas
José Félix
22. Finzinho de outono - Ah, cigarra cantadora já cantas tão longe...
Anibal Beça
Os olhos do gato seguem as sombras por entre os choupos.
José Félix
23. O primeiro sol leva as asas da cigarra - juntam-se as formigas
Os meninos camponeses debulham o milho na eira
José Félix
24. Uma folha seca pousa no chapéu do ancião - Visita ao asilo
Em cada nó na tarrafa uma outra história tecida
Anibal Beça
25. Passa um funeral - murcha a última papoila na seara de Beja.
Nos beirais alentejanos os ninhos estão vazios.
José Félix
26. Na noite comprida vagarosos são os passos até o banheiro
Há tempos que o sono solto se interrompe mais de uma vez
Anibal Beça
27. Casa abandonada - nas portas escancaradas entram folhas secas.
A furgoneta carrega uma cadeira e a mesa.
José Félix
28. Trinados de pássaros embalam velhas memórias - calmo cemitério
O vento nas folhas secas inventa um murmúrio de ondas
Anibal Beça
29. Bengala esquecida no tronco da cerejeira - regresso às origens.
Rasto de passos pesados marcam os sulcos da terra.
José Félix
30. Noite longa - a lua cheia é a mesma mas não os ruídos
O que se ouvia tão forte agora se ouve baixinho
Anibal Beça
31. Amanhece o dia - há montes de folhas secas na borla do lago
os pescadores furtivos acoitam-se para a sesta
José Félix
32. no dia de outono um novo olor no jardim - orquídea florida.
As abelhas jandaíras preparam nova colméia
Aníbal Beça
33. Aroma a tabaco - os apicultores limpam com fumo os cortiços.
Ouve-se o zunir das abelhas a rondar o campo de urzes
José Félix
34. Antes da chuva folhas arranham a porta - Vento de outono.
Anibal Beça
Correm coelhos no montado pouco antes de anoitecer.
José Félix
35. Esta lua cheia também estava por lá - primeira paixão.
Anibal Beça
Aqui os bicos da lua arredondam ao contrário
José Félix
36. O outono se vai - à porta entre folhas secas a carta esperada
No dia 16 de Dezembro publiquei um soneto que é uma descrição ecfrástica de uma fotografia nos sítios Escritartes e Luso-Poemas.
A fotografia foi (não sei se ainda lá está) publicada de modo público naqueles sítios da Rede e ela suscitou-me a écfrase no soneto indo buscar o meu saber e conhecimento para realçar alguns aspectos daquela fotografia.
Um dos associados, neste caso no sentido feminino, começou uma altercação desejando que a fotografia fosse retirada do poema bem como o respectivo nome. Eu não sei se a denominada "helen de rose" é mesmo a proprietária deste nome ou se é, como acontece milhões de vezes, um avatar, uma alcunha, um pseudónimo. Procurei na Rede e verifico que aquele nome é tudo menos pertença da denominada "helen de rose" que, penso, é um cognome retirado das práticas para-esotéricas chamadas de auto-conhecimento e que levam a denominação de "Rose" como o método "DeRose" de yoga.
O poema, conforme os leitores podem verificar, não insulta, não insinua, e é, tão só, uma descrição literária de uma fotografia e não da pretensa dona da fotografia.
A denominada "helen de Rose" ameaçou a Administração dos dois sítios e eles fizeram como Salomão: expulsaram a utilizadora dos sítios e apagaram o meu poema num acto atentatório das liberdades, garantias e direitos que prevalecem neste país, segundo a Lei Fundamental, apesar de, por exemplo em Escritartes, no ponto 1.1 do regulamento do sitio dizer que o lugar é plural, na altura de registo.
De imediato pedi o cancelamento do meu perfil e requeri que apagassem todos os meus textos.
Entrei com outro perfil para informar a Administração acerca da denominada "helen de rose" e as patranhas que utiliza na rede e, até agora, não recebi qualquer informação, isto depois de terem devassado a minha caixa de correio, tendo visionado como o "Grande Irmão" as mensagens que dirigi a outros membros.
Trinta anos após a revolução de Abril, a mentalidade de Salazar ainda perdura em muitas cabeças, mesmo que essas cabeças tenham nascido após a revolução.
Can we built also in this way an entire voice of the world? Constantino Alves
A voz é única, cantada mil vezes única nos lábios. A voz dispersa-se nas mil bocas ─ cada uma abre a semente à sua maneira em cada ovo gerado. Sai prisioneira de Tântalo que serve de repasto aos corvos. Com o tempo Niope perderá os seus filhos mortos um contra o outro e Europa com a mão sob o queixo chorará porque não foi convidada para a ambrosia e néctar.
Talvez, um dia, Pelops desmembrado pelo próprio pai renasça da sede e dos frutos e do caldeirão mágico venha uma voz única, que se espalhará pelo Olimpo.